OPINIÃO

Vendendo desprodutos

Por Alexandre Brandão*
Nossa lama de chocolate meio samarco vale como xarope bhp-billitônico e é indicada para devastar vidas inocentes. Efeitos colaterais? Quem pobre estava mais pobre fica se e quando sobrevive. Nada de muito grave.
Aritmética do marido da mulher prendada: soma e subtraia ministérios até acalmar as águas dos rios do interesse — e não se importe se dois menos um for um falso três. A matemática pura e insofismável é coisa pros outros, os que pedalam. Sob nosso auspício e noves fora isso e aquilo, monte um ministério masculino, o que não se vê desde a ditadura, e seja invejado por todos.
Plantamos na imprensa falada, escrita e televisionada a tese de que agora é parlamentarismo ou a crise não chega ao fim. Visamos a outros clientes que não os tucanos, oferecendo-lhes preços e condições de pagamento ímpares.
Nosso plano médico permite aos clientes adoecer aqui e ir se curar em hospitais na Síria. Papa fina, mas, como não somos os únicos no mercado, a mensalidade — nosso diferencial — é do outro mundo.
Entregamos quentinhas no Brasil inteiro. Prato do dia: cuscunha temerado ao aceite de impeachment. Acompanha dessa água não beberei, com gotas de limão calheiro.
Assaltante age às escuras. Um deles deu um bote na filha do governador do Rio de Janeiro, mas, se tivesse encontrado no carro o pai da moça em vez dela, coitado do assaltante, o chefe do executivo está sem dinheiro, raspando o bolso de qualquer um que se aproxime dele. Fica o alerta:
Assaltante consciente, não conte com a sorte, temos app identificador de vítimas para pronta-entrega!
Vende-se bicicleta voadora para ciclovias interditadas. Ligue para 1717171 e diga a senha “E.T. phone home”.
Traficantes, tenham um mínimo de responsabilidade social: Não vendam seus baseados na porta das escolas de São Paulo. Lá, os meninos estão sem merenda e, na larica, podem tornar-se violentos. Sigam esta máxima: Vender menos hoje para vender mais amanhã. Isso é empreendedorismo. Podemos lhes ensinar muito mais.
Comercializamos frases para uso em momentos de júbilo republicano. Uma amostra para dias de impeachment e que tais: Voto sim — ou não, fica a gosto do freguês — pensando nas colombinas edulcoradas da minha infância. Temos frases sintéticas para políticos apoéticos. Antes da consulta, 50% na mão. Ao fim e ao cabo, não podemos esquecer dos 10% da propina usual. 
Apagamos palavras de dicionários. Temos apreço pelas começadas com G.
Campanha cívica: não confunda boi sonado com o deputado fascista.
Contra cuspes e escarradas, caras de pau a menos de um tostão.
Temos bicicletas sem pedal, muito apropriadas para quem é irresponsável ou é tratado como tal. Estoque baixo.
Troque seis por meia dúzia. Oferecemos os disfarces.
Aprenda a falar impeachment sem sotaque com o método Celso de Mello, certificado pela própria rainha. Manteremos uma promoção espetacular até que a Inglaterra se decida se fica ou se sai da União Europeia.
Temos lulas congeladas desde quando os mares não eram poluídos. Vitaminas e sabores preservados. Na compra de duas, ganhe um livro de receitas escrito por um amigo.
Reciclam-se discursos. Damos sabor democrático àquele desenxabido dos tempos da Arena e do Manda-Brasa esquecido numa gaveta. O cliente escolhe ou uma garantia de sucesso, pagando um adicional, ou um escudo contra chuva de ovo choco.
Oferecemos pacotes de ministros da fazenda. Com uma assinatura bianual, pode-se usar, no primeiro ano, um neoliberal com formação em Chicago e, em seguida, um keynesiano ortodoxo. No segundo, um homem de mercado, mestre no arroz com feijão com viés de favorecimento ao ex-patrão, e um marxista lunático. No Brasil ou fora, entregamos à domicílio ou em domicílio, o que for de acordo com a gramática do freguês.
Pintamos de branco defuntos de jovens negros de modo a inverter as estatísticas que cismam em apontá-los como as maiores vítimas da violência policial. Podemos também desenhar rugas para simular uma idade maior. Dois serviços, duas tarifas.
Levamos cópias de índios para eventos de falsa demarcação de terras. Não falam o tupi, mas arranham o kiriri.
Vendemos poesias boas, parnasianas ou não, para presidentes sem votos. Podemos — se o cliente se dispuser a fazer módicos depósitos em contas nas Ilhas Cayman — montar um business plan para o seu aceite na Academia. O fardão é negociado à parte, num segundo momento.
Não fazemos marketing político, mas gostamos de dinheiro.
* É escritor passense, mantém o blog 'No Osso' (http://noosso.blogspot.com) e seu e-mail é: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
- Estas informações podem ser lidas também na rede socia: Facebook (Ézio Santos e passosmgonline).
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