OPINIÃO

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Nas paredes da cidade

Por Alexandre Brandão*
Encontro em algumas paredes da cidade a frase “eu dei pra ele”, que circulou num primeiro momento de forma anônima e, soube-se depois, é de autoria de Anitta Boa Vida, artista visual. Leio a frase como reflexo do empoderamento feminino, o que me leva a concluir que “dar” não é mais nem motivo de vergonha nem expressão da subordinação da mulher ao homem. “Dar” e “comer” vêm ganhando um novo significado, sendo revalorizadas, e não seria exagero dizer que são atualmente palavras da mesma magnitude. Mal faço a afirmação, recuo um pouco, pois a violência ainda incide sobre as mulheres, a igualdade está longe de ser realidade. Apesar disso, e em alguns espaços, mulheres e homens se veem e se tratam com mais equidade, “eu dei pra ele” é a prova disso. 
Não faz muito tempo, li um artigo no qual a autora chamava a atenção para o fato de que o xingamento expressa, no mais das vezes, uma voz masculina, heterossexual e preconceituosa. Alguém, ao ser chamado de “filho da puta”, recebe um selo de má origem (do qual não se livra), o de ter sido alimentado pelo leite sujo das profissionais do sexo. Porém, não é de hoje que usamos o “filho da puta” de forma positiva. “Esse filho da puta aqui é meu melhor amigo.” O mesmo ocorre com a palavra “puta”. “Eu tenho um puta amor por ela.” Não nos iludamos: a puta e o filho da puta continuam malvistos e marginalizados, ainda que, também é verdade, eles tenham, aqui e ali, gritado (sem grande sucesso) por seus direitos.
Quando a mulher diz, pelas paredes ou não, que “deu pra ele”, em vez de reforçar o estigma da sujeição, ela retira do armário sua voz, expõe sua força. Ela é mulher no sentido mais atual possível, apesar de as palavras escolhidas já terem servido a outro dono. Todos, ao transformarmos o xingamento em elogio, e as mulheres, ao tomarem as frases que as diminuíam para passar a expressar a própria potência, estamos dando novos significados às palavras. 
Já vi, em pelo menos duas paredes do meu bairro, um pedido para que se libere a necrofilia. Haverá de fato um grupo que queira uma coisa dessas? Ou serão apenas pessoas dispostas a afrontar nossos valores, a testar nossos limites? Quem sabe não passa de uma turma empenhada em promover o escândalo? Será um grupo ou um solitário? Como saber?
Vira e mexe me deparo com intervenções urbanas cujo autor não se revela. Numa época de eleição, vi uns jovens carregando no peito cartazes do tipo “compro/vendo ouro”, só que, no caso, as palavras eram “compro/vendo voto”. Mais ainda, num dos galhardetes, reproduzia-se de “A Igreja do Diabo”, conto de Machado de Assis, o trecho no qual o Diabo pondera o seguinte: se é possível e até louvável vender o que é nosso, a casa, o chapéu, os sapatos —— tudo que está fora da gente, por que não se pode vender o que nos é inerente, a opinião, a fé e, logo, o voto?
Não sei quem patrocinava aquela intervenção, não sei como os cartazes foram parar no peito dos rapazes, mas sei muito bem que estava diante de um questionamento sobre a nossa democracia, a lisura das eleições, a eficácia de nosso acordo social e até mesmo, de modo mais abrangente, a hipocrisia, haja vista que não é segredo para ninguém o fato de muitos negociarem (comprando e vendendo) o voto. Não consigo enxergar um segundo propósito, o recado está dado de forma inequívoca e provocativa. A estranheza é não ser uma obra com assinatura, mas ela não é necessária ou é mesmo desnecessária.
Embolo muitos assuntos: autoria, linguagem, política, conquistas femininas. Tento dar um desfecho nisso tudo.
Conhecer quem escreve “eu dei pra ele” nas paredes é fundamental para saber se estamos no mundo que avança ou no que retrocede (o que seria o caso se a frase tivesse as digitais de um homem heterossexual). Como a frase foi assinada por uma mulher, concluo que a língua, ao usar velhas palavras, retirando-as da escuridão secular em que repousavam, também avança. A autoria, repito, não faz falta à provocação a respeito de nossa democracia, pois o que importa não é com quem dialogo, mas qual é o assunto proposto. No galhardete machadiano, eram jogadas na cara de todos as ervas daninhas que vicejavam, e continuam vicejando, no campo (agora mais do que nunca) minado de nossa democracia. Quanto à necrofilia, francamente, é triste ver tamanha estupidez turvar as paredes da cidade. Pior que isso, ter certeza de que seu autor jamais se revelará, pois, ao contrário do que questiona nosso processo eleitoral, que, ao se ocultar, se expressa claramente, o defensor da necrofilia será sempre um covarde, escuso e violento. 
* É escritor passense, mantém o blog 'No Osso' (http://noosso.blogspot.com) e seu e-mail é: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
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